A nova ecologia: ascese para uma vida virtuosa

Espiral de la vida

 

 

“Considerando as noções de equilíbrio e harmonia que prevalecem no ideário ecológico, poderíamos dizer que o sujeito ecológico partilha, em algum nível, da crença na possibilidade de curar o conflito entre natureza e cultura que Freud identificou como a fonte do mal estar da civilização. Esta cura está associada a uma noção de bem viver ecológico que, na medida em que acredita poder resolver este conflito fundamental, termina instituindo não apenas um discurso político de novos pactos planetários em vista da regulação das relações sociedade e natureza, mas também inaugura um estilo de vida que no plano individual leva a incorporação de novos hábitos e atitudes em várias esferas da vida.

Na esfera da alimentação, pode-se citar a produção agroecológica, orgânica, antroposófica, bem como movimentos que têm na alimentação e na produção do alimento limpo e justo seu foco, como o Slow Food e a agroecologia.

Na esfera da habitação, surgem as ecovilas [com arquitectura sustentável], ecodesign, permacultura.

Na esfera do vestuário, este estilo de vida se expressa na valorização de vestimentas étnicas, artesanais e tecidos naturais.

As formas de medicinas alternativas, orientais, modos de vida saudáveis identificados a uma vida simples e com o contato com a natureza proliferam na esfera da saúde como um ideal buscado por muitos.

A esfera da produção também se encontra permeada por cooperativas, vendas diretas, economias solidárias, que se apresentam como alternativas ao sistema de mercado capitalista hegemônico.

Por fim, há que lembrar o campo religioso, cada vez mais atravessado pelas formas de espiritualidades como a nova era, onde as práticas e rituais tendem a associar de modo direto o sagrado à natureza e a valorizar as tradições pré-cristãs, orientais e indígenas.

Em todos estes hábitos e atitudes encontramos uma orientação comum que poderíamos denominar de uma ascese para uma vida virtuosa, saudável e em consonância com um ambiente igualmente são” (p. 84-85).

“Considerando que a tensão natureza e cultura é fundadora da epistemologia moderna, o caminho que percorremos para propor o que chamamos de epistemologias ecológicas indica algumas tentativas não reducionistas de operar dentro desta tensão, reordenando as dualidades sujeito-ambiente, sem recair nos determinismos sejam eles culturalistas ou biológicos. Este divisor de águas entre a cultura e a biologia tem sido um elemento constituinte da própria divisão entre ciências humanas e ciências naturais. Ao situarem-se de um ou outro lado, os saberes contemporâneos, sob o argumento da especialização, criaram um abismo no diálogo entre as ciências da natureza e as humanidades, o que tem culminado em posições reducionistas e defensivas, que vão eleger ora o arbitrário da cultura ora a ordem da necessidade no plano biológico como matriz explicativa das determinações do real.

Ainda que o pensamento ecológico em nível prático, parta da crítica ao objetivismo científico e tenha tomado o sujeito cartesiano como emblema da ruptura a ser superada por um pensamento holista e interdisciplinar, o que temos visto é que, mesmo no âmbito dos movimentos ecológicos, este intento ainda está longe de ser alcançado.

Entre as perspectivas ecológicas que buscam manter esta tensão, sem reforçar os reducionismos, permanece a questão dos diferentes modos de lidar com o dualismo, seja para colapsá-lo ou para reconfigurá-lo. Esta não é uma questão trivial, e mesmo que pensemos com (Latour 1993), ao nos advertir que “jamais fomos modernos”, referindo-se às relações híbridas entre natureza e cultura, traçar o horizonte de compreensão destas relações é uma questão que permanece em aberto. Apresentando o problema de outro modo, o que também está posto aí é o tema da alteridade e do monismo. A pergunta, neste caso é, em que medida, a negação de qualquer dualidade natureza e cultura, não resvalaria em uma perspectiva monista que pode levar ao colapso da alteridade?

Em uma analogia com a metáfora lacaniana, estas perguntas desenham o que poderia ser a fita de Moebius da questão ambiental, onde o debate percorre ora a frente ora o verso desta fita, passando ora pela ruptura dicotômica, ora pela fusão e ora pela alteridade das relações natureza e cultura, produzindo em cada uma destas dobras diferentes efeitos sociais e subjetivos, éticos, estéticos e pedagógicos. É sobre esta dimensão pedagógica de nossa fita de Moebius da virada ecológica que finalizamos este artigo, deixando em aberto as possibilidades de se pensar os desdobramentos deste debate no campo específico da educação ambiental” (pp. 91-92).

Isabel Cristina de Moura Carvalho e Carlos Alberto Steil, “O Habitus Ecológico e a Educação da Percepção: fundamentos antropológicos para a educação ambiental”, in Educação e Realidade, 34(3): 81-94 set/dez 2009. Disponível em: http://www.seer.ufrgs.br/educacaoerealidade/article/viewFile/9086/6711

 

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“À mesa com o universo: a proposta macrobiótica de experiência do mundo”

CapaVirginiaCaladoMarobiotica
 http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=28850

“A macrobiótica será aqui perspectivada como cosmovisão que incorpora um sistema alimentar e um sistema terapêutico. Sistemas que se entrecruzam, e que nessa articulação se pensam como alternativa a sistemas alimentares e terapêuticos convencionais.”

 Virgínia Henriques Calado, À mesa com o universo: a proposta macrobiótica de experiência do mundo, Tese de doutoramento, Ciências Sociais (Antropologia Social e Cultural), Lisboa, Universidade de Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2012.

Site: Repositório da Universidade de Lisboa: À mesa com o universo: a proposta macrobiótica de experiência do mundo.

O que é um Observatório? Definição de “Observar” e “Observatório”.

O QUE É OBSERVAR?
A palavra observar vem do latim observare que, segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa quer dizer “Olhar,considerar atentamente, examinar minuciosamente, sobretudo, com a intenção de conhecer melhor; fazer um comentário, um reparo, uma advertência, chamar a atenção para alguma coisa…”. O acto de observar é, muitas vezes, associado a algo de natureza “passivocontemplativa”.Contudo, da própria definição da palavra depreende-se que observar implica dois tipos de acções: olhar/examinar para conhecer melhor e, com base nesse (novo) conhecimento/insight, fazer recomendações.
O QUE É UM OBSERVATÓRIO?
A palavra observatório vem do latim observatum que, de acordo com o Dicionário de
Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, tem sido utilizada com diferentes significados, designadamente: “Estabelecimento científico que se destina a observações astronómicas e meteorológicas; posto, lugar de observação situado num posto elevado do terreno, ocupado com carácter permanente por pessoal especializado e munido de tecnologia específica para vigiar os movimentos, as operações do inimigo ou avaliar da sua força, das suas intenções;
lugar situado num ponto elevado, de onde se pode observar qualquer coisa”.

in http://portal.arsnorte.min-saude.pt/portal/page/portal/ARSNorte/Conte%C3%BAdos/Sa%C3%BAde%20P%C3%BAblica%20Conteudos/Observatorios_Locais_Saude_Implementacao.pdf

O que é um Observatório?

“As informações de um observatório subsidiam a ação técnica e política dos envolvidos. Ao monitorar sistematicamente as ações de determinado órgão ou um tema de interesse coletivo, o observatório exerce o controle social e contribui para os avanços democráticos.

Formalmente, um observatório pode ser um órgão de governo, parte da estrutura de uma universidade ou de uma ONG, pode ser constituído de forma mista ou por uma associação independente ou um conjunto de associações com interesses coletivos.

[…]

Um exemplo interessante é o Observatório Social do Brasil (OSB). A iniciativa surgiu em Maringá, no Paraná, depois que o município vivenciou um escândalo de corrupção na administração pública, na década de 2000. A base para o OSB foi o movimento pela cidadania fiscal, em 2005. Em seu primeiro ano, este observatório, por meio de suas ações, conseguiu gerar uma economia para o município de R$ 9,5 milhões. Com isso, outros municípios se interessaram em promover iniciativas semelhantes, e o Observatório Social do Brasil foi construído.”

GUIA DE USO DO SISTEMA DE INDICADORES PARA A CONSTRUÇÃO DE OBSERVATÓRIOS

http://www.cidadessustentaveis.org.br/downloads/arquivos/guia-uso-sistema-indicadores.pdf

Ecosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno

Espiral de la vidaEcosofia, redes digitais sustentáveis e os efeitos da tecnologia no homem moderno

O conceito de Ecosofia vai muito além dos estudos da Ecologia. Neste campo ligado à filosofia, como explicou Maffesoli, o sujeito egocêntrico perde espaço para uma visão mais sistêmica da realidade e da natureza. O consciente coletivo, nossa cultura, é o elo integrador. Para o professor, a Ecosofia é uma proposta de retorno mental a esse coletivo. “É a completude, mas não a busca da perfeição. É um equilíbrio entre o lado racional e o lado primitivo do homem”, definiu.

Para o pensador, a pós-modernidade é barroca, já que voltamos a uma animalidade, até então esquecida. Ele apontou um reflexo disso na moda, na música e nos jovens. Uma volta ao primitivismo que, em doses homeopáticas, pode evitar um surto de bestialidade como foi retratado, segundo Maffesoli, durante o Holocausto.

“Quando observamos a propaganda na França, por exemplo, vemos elementos estereotipados dos arquétipos culturais da sociedade. Esta imagem comum a todos é usada frequentemente na linguagem publicitária”, contextualiza. Maffesoli deu como exemplo a mobilização mundial em torno do casamento real do príncipe William e da futura princesa Kate, na Inglaterra. “Essa união faz com que todos, mesmo aqueles que não são ingleses, comunguem em função da ocasião, pelo fato de um príncipe estar se casando com uma plebeia. O mito do matrimônio desperta uma segmentação arcaica que faz com que nos liguemos uns aos outros”, explicou.

Acontecimentos deste tipo, até mesmo o funeral da princesa Diana, observou o professor, demonstram que, muito mais importante do que a consciência de classe é o sentimento de pertencimento. Seja ele sobre o ambiente virtual, como as redes digitais, ou os espaços físicos, como nossas casas ou bairro. “Não vivemos mais um logocentrismo. Pelo contrário, estamos entrando em um estágio de ‘lococentrismo’, que privilegia o espaço e a matéria”, observou.”

André Bürger, do Nós da Comunicação

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